domingo, 8 de setembro de 2013

Poesia a quatro mãos


Bilhete de identidade

Nasci branco de segunda
Calcinhas ou kaluanda
Nasci com os pés no mar
em São Paulo de Loanda

Brinquei de pé descalço
Em poças de águas castanhas
Tive lagartas da caça
Não escapei às matacanhas

Comi manga sape-sape
Fruta-pinha tamarindo
Mamão a gente roubava
No quintal do velho Zindo

Pirolito que pega nos dentes
Baleizão, paracuca
E carrinhos de rolamentos
Numa corrida maluca

Tinha o Gelo, tinha a Biker
Miramar e Colonial
O Ferrovia, o Marítimo
Chás dançantes no Tropical

O N'Gola era só ritmo
O Liceu uma lenda
Kimuezo e Teta Lando
E os Ases do Prenda

Havia velhas que fumavam
E velhos com ar de sábio
Enquanto novas músicas
Se insinuavam na rádio

"E a cidade é linda
É de bem querer
A minha cidade é linda
Hei-de amá-la até morrer"

Quem não estudou no Salvador?
Quem não se lembra do Videira?
E das garinas de bata branca
Nossas colegas de carteira?

Depois havia o Kinaxixe
Futebol era nos Coqueiros
Havia praias, um mar quente
Savanas imensas, imbondeiros

E havia o som do vento
O cheiro da terra molhada
As chuvas arrasadoras
O fogo das queimadas

E havia todos os loucos
Do progresso e da guerra
A Joana Maluca, o Gasparito
A desgraça daquela terra

Nasci branco de segunda
Calcinha ou kaluanda
Nasci com os pés no mar
Em São Paulo de Loanda"


 Nicolau Santos e António Costa Silva

in Jacarandá e Mulemba



Bailarina Negra 



A noite

(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz

Um perfume de vida
esvoaça
adjaz
Serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

Amor,
Venus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.

António Jacinto



Foto de Adalberto Gourgel

sábado, 28 de janeiro de 2012

Amar a liberdade...


 Lindo momento.
 Duas bonitas vozes 




"Nas minhas mãos a madrugada abriu 
a flor de Abril também..."

Show Paulo Flores e Amigos
Casa 70, Luanda
Abril 2011

terça-feira, 24 de janeiro de 2012



O HOMEM QUE VINHA AO ENTARDECER


(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)

Falava com devagar, ajeitando as

palavras. Falava com cuidado,

houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos

cheios de terra vermelha e do perfume

dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto

ao peito)

Depois falava.

Dos bois, das lavras, das coisas

simples do seu dia-a-dia. E todavia

era tal o mistério das tardes quando

assim falava

que doía.





José Eduardo Agualusa

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Silêncios


vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. 
adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. 
depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. 
com esse sorriso vou iniciar uma construção...

uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura

(materiais para a confecção de um espanador de tristezas)

Ondjaki

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

           Solidão




 Aproximo-me da noite

o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso


Esta deveria ser a hora
em que me recolheria

como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou


Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna


Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo




Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
































terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vamos dar uma espreitadela ao novo livro de Ondjaki...

 A bicicleta que tinha bigodes




“essa fogueira de sermos meninos”



não há como fugir ao que tem de ser dito: escrevemos em busca da voz que mais nos fala por dentro. ajustando a vida (a escrita?) às “falas do lugar”. escrevendo para lembrar o que ainda não tinha sido contado...

vos agradeço, vos abraço: em criança como agora, eu andava em busca das vossas estórias para fingir e acreditar que os livros sempre inventam essa fogueira de sermos meninos à volta dela...
Ondjaki


 Uma história sem luz elétrica

Sonhei com a bicicleta bem colorida, os da minha rua brincavam com ela, o CamaradaMudo ria muito, a AvóDezanove dizia para termos cuidado para não sermos atropelados por nenhum carro e para não atropelarmos mais nenhum bicho, a bicicleta do meu sonho era bem grande e zunia muito, amarela nas rodas, o quadro e o volante eram vermelhos e os para-lamas assim pretos, só que à frente, um pouco abaixo da zona do volante, ninguém ainda tinha visto: a bicicleta tinha uns bigodes iguais aos do tio Rui...
Ondjaki