"Que difícil que é a vida dos homens...
Eles não têm asas para voar por cima das coisas más..."
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 14 de junho de 2007
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Um cheirinho do diário das viagens de Laurentina Rei.
Estrada de Luanda para Benguela, 30 de Outubro 9:00
Estamos finalmente on the road. Pouca Sorte apareceu diante do hotel com uma van, como essas que cumprem o serviço de táxis colectivos em toda a África Austral. Tínhamos combinado que seria um bom jipe, 4 por 4. Kiluange ficou furioso. Acha que não seremos capazes de atravessar o troço da Kanjala, no caminho para Benguela, muito destruído, e que foi cenário de sangrentas emboscadas durante a guerra. Eu, porém, decidi arriscar. Estava louca por me fazer à estrada. Mariano vem contrariado. Ele está aqui só por minha causa. Os pais dele são angolanos mas Mariano odeia África. Logo no aeroporto, nas escadas do avião, queixou-se do calor: Enfureci-me:
– Ainda nem pisámos em terra e tu já protestas. Não sabes apreciar as coisas boas?
– Que coisas boas?
– Sei lá, o cheiro, por exemplo. O cheiro de África!
– O cheiro de África?! Cheira a mijo, caramba!...
Fiquei calada. Cheirava mesmo.
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Estrada do Namibe para o Lubango, 3 de Novembro 11:45
Estive a tocar saxofone num impressionante desfiladeiro, a escassos quilómetros do local onde estamos alojados, o Flamingo Lodge, uma dúzia de barracões erguidos em pleno deserto, junto ao mar. São propriedade de um sul-africano que começou por ter uma fábrica de farinha de peixe em Porto Alexandre. Estamos agora a subir a Serra da Leba, a caminho do Lubango. A paisagem é impressionante. A estrada serpenteia entre morros altíssimos. Os homens, aqui no carro, não estão interessados na paisagem. Conversam sobre mulheres. Nos últimos dias não têm feito outra coisa senão conversar sobre mulheres.
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Estrada Mapumalanga, South Africa 20 de Novembro
Daqui a pouco entramos em Moçambique. Vou conhecer a minha mãe – que nem sequer sabe que eu existo. Como se diz a uma mãe, "sou a tua filha", quando ela pensa que essa filha morreu no parto?
E isto filma-se?
Porque é de um filme que se trata. O meu filme. Vou chamar-lhe: "As Mulheres do Meu Pai".
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Romance contagiante sobre mulheres,música,muita cor.Viajamos devorando as páginas com prazer,até Africa.Mostra-nos o lado humano, divertido e emocionante de África sem calamidades.
Novo livro de Agualusa
O novo livro de José Eduardo Agualusa,
nasceu de um projecto para cinema e
conta uma história passada
em vários países do sul de África.
Em entrevista, o autor contou que
o romance surgiu a partir de uma viagem
que fez em finais de 2005 com a cineasta Karen Boswall,
de Luanda (Angola) até à Ilha de Moçambique,
passando pela Namíbia e África do Sul.
Em "As Mulheres do Meu Pai", Laurentina Reis, 30 anos uma realizadora de cinema e documentarista portuguesa de origem africana (nasceu na Ilha de Moçambique) regressa a África para conhecer o pai,descobre que ele é músico angolano que se tornou famoso nos anos sessenta e setenta. Faustino Manso, viveu em diversas cidades angolanas, ao longo da costa, bem como em Cape Town, Maputo, Quelimane e Ilha de Moçambique.Laurentina tenta reconstruir o percurso do pai, entrevistando as suas mulheres e filhos e algumas pessoas que com ele conviveram.