MAR ME QUER
"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."
Mar me quer
Mia Couto
Já há algum tempo que este livro "mora" na biblioteca,registei,cataloguei e arrumei,gosto do autor, mas ainda nao tinha tido tempo de deitar um olhinho com devagar
para a obra,hoje ao ver o livro fora da estante habitual peguei,folheei e li na abertura do primeiro capítulo "Deus é assunto delicado de pensar..."continuei o meu caminho e encontrei "Sou feliz só por preguiça..." dá-me vontade de rir,só mesmo Mia Couto,o entusiasmo foi tanto que o trouxe para casa.Revela-nos a história de um homem e de uma mulher,o Zeca Perpétuo e a mulata Luarmina,vizinhos,Zeca olhando o mar vai contando historias do passado Luarmina escuta.Zeca tenta seduzir e a mulata Luarmina defende-se de mil maneiras,tentando resistir ao namoradeiro Zeca.
- Levanta, ó dono das preguiças.
É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo:
- Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
- Conversa de malandro…
- Sabe uma coisa, D. Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver…
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher…
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, D. Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestino sobre pensarmos Deus ou não-Deus…
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
- Não é verdade, D. Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu um suficiento do actual presente. E basta...
....Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras, Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se.
- Me deixe sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol?
- Que ideia, Dona vizinha?! Quem lhe disse que eu tinha essa intenção?
Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência, beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela...
...E até que Dona Luarmina, aliás Albertina da Conceição Melistopolous, já foi bela de espantar a homenzarrada. Sei isso porque testemunhei um flagrante dessa formosura dela. Entrei em sua casa, sentei na sala grande com vista para o mar. Foi então que eu vi a fotografia. Era de uma moça de espantável beleza, corpo de aguar as mais mornas bocas.- Quem é essa?
- Sou eu, quando era nova. Antes de chegar aqui...Me levantei, já em vias de tocar a foto. Mas ela, secamente, emendou a visão minha, vertendo a moldura sobre a mesa. E ali ficou, para os restantes dias, aquele retrato deitado de costas para a luz. Eu bem tentava espreitar, da janela, a imagem da sua antiga beleza. Em vão.
Restava-me a presente figura de Luarmina, gorda e engordurada. A mulher, por razões de angústia, se deixara acumular, quilos sobre o peso. Eu entendo: uma boa maneira de esconder a tristeza é cobrirmo-nos de carne. O sofrimento é fatal quando atinge os ossos. Chegada aí, a tristeza se apressa em virar esqueleto. Sábio é dar cobertura ao corpo, intermediar gordurosas fronteiras.
Às vezes, ainda relampeja nela alguma infância. Então, ela tenta brincar-me, espicaçar-me uma ciumeira.
- Uma vez, um homem me chamou de dólingui.
- Dólingui?
- Dólingui ou darilingue. Era um estrangeiro de fora.
- O que é isso, darilingue? Tenho muitos nomes bastante melhores que esse, não quer ouvir Dona vizinha?
...Dona vizinha desconfia das desventuras dos outros. Só lhe interessa as antiguidades de que fiz parte. E eu, para subterfugir, aldrabo umas lembranças, desenrasco uns pensamentos. Até, um dia, lhe perguntei:
- Por que só minhas lembranças, as pessoais?
A vizinha não respondeu. Antes, retrucou assim:
- Bom, se lhe custa, então, me conte uns sonhos…
Mas eu que nem me lembro nunca dos sonhos que me visitam enquanto durmo! É que temos horários diferentes: eu e o sonho. E aviso:
- Hão-de ser sonhos falsificados…
- Não importa.
E teimei. Até porque traz má sorte recordar quem nos visitou durante o sono. Assim, eu iria dar umas demãos de invenção nos meus relatos. Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.
- Não faz mal, Seca Perpétuo. Hoje, até eu podia pagar para alguém me contar os sonhos.
Riu-se, em esboço. Mas era uma só tristeza molhada. Depois, deixei minha vizinha em seu assento e fui regressando, em passo lento, a minha casa. Luarmina se entranhou na sua pequena mania, como se descosturasse um pano nenhum:
- Mar me quer, bem me quer…
Este era o cantochão de Luarmina, o infindo rameramejar dela. Todos fins de tarde a mulata fica sentada, num degrau da varanda, e vai desfolhando infinitas flores. Ao fim de um tempo, todo o pátio está forrado a pétalas, o chão espantado a mil cores.
Que delícia