terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Sonho

Sonho

Pudesse eu um dia voltar à minha terra
ver os coqueiros e os cafezais em flor
ver as sanzalas transformadas em casas dignas
de homens que trabalham noite e dia


pudesse eu tornar a ver-te mãe
e abraçar-te e beijar-te até não mais
e ver finalmente os meus irmãos de cor
respeitados como eu sempre sonhei

pudesse eu ver as palmeiras da avenida
gingando ao vento e ao grande calor
e pisar essa terra agora nossa

pudesse eu daqui dizer-vos tudo
que sinto e que quero transmitir
pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado


Maria Olinda Beja
Bô Tendê?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

VENTO

Vento


és a casa dos pássaros.


és o não-chão. nem tremor nem homens nem calor. és o


aéreo que encandeia as nuvens e, num passo gémeo, as


conduz.


és sedução genuína nessa textura que usas no mar. os


pássaros te freqüentam erráticos porque também és o


eco da poesia — a estranha densidade de nada pisar



o não silencioso.


o silencioso.



és o deserto que chove sobre o mundo 


Esperar o vento...
Ondjaki





 




sábado, 17 de novembro de 2007

Voltei

Depois de tanto tempo ausente
Uma musikinha
para os que por aqui têm passado
Bj gordos
 

quarta-feira, 11 de julho de 2007

 


 "Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho
e sobre ele lança toda a força de sua alma,
todo o universo conspira a seu favor."

Goethe



quinta-feira, 14 de junho de 2007


"Que difícil que é a vida dos homens...
Eles não têm asas para voar por cima das coisas más..."



Sophia de Mello Breyner Andresen



                                   "Os sonhos cheiram melhor do que a realidade."




quarta-feira, 13 de junho de 2007

Um cheirinho do diário das viagens de Laurentina Rei.


 


Estrada de Luanda para Benguela, 30 de Outubro 9:00

Estamos finalmente on the road. Pouca Sorte apareceu diante do hotel com uma van, como essas que cumprem o serviço de táxis colectivos em toda a África Austral. Tínhamos combinado que seria um bom jipe, 4 por 4. Kiluange ficou furioso. Acha que não seremos capazes de atravessar o troço da Kanjala, no caminho para Benguela, muito destruído, e que foi cenário de sangrentas emboscadas durante a guerra. Eu, porém, decidi arriscar. Estava louca por me fazer à estrada. Mariano vem contrariado. Ele está aqui só por minha causa. Os pais dele são angolanos mas Mariano odeia África.
Logo no aeroporto, nas escadas do avião, queixou-se do calor: Enfureci-me:
– Ainda nem pisámos em terra e tu já protestas. Não sabes apreciar as coisas boas?
– Que coisas boas?
– Sei lá, o cheiro, por exemplo. O cheiro de África!
– O cheiro de África?! Cheira a mijo, caramba!...
Fiquei calada. Cheirava mesmo.


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Estrada do Namibe para o Lubango, 3 de Novembro 11:45

Estive a tocar saxofone num impressionante desfiladeiro, a escassos quilómetros do local onde estamos alojados, o Flamingo Lodge, uma dúzia de barracões erguidos em pleno deserto, junto ao mar. São propriedade de um sul-africano que começou por ter uma fábrica de farinha de peixe em Porto Alexandre. Estamos agora a subir a Serra da Leba, a caminho do Lubango. A paisagem é impressionante. A estrada serpenteia entre morros altíssimos. Os homens, aqui no carro, não estão interessados na paisagem. Conversam sobre mulheres. Nos últimos dias não têm feito outra coisa senão conversar sobre mulheres.

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Estrada Mapumalanga, South Africa 20 de Novembro

Daqui a pouco entramos em Moçambique. Vou conhecer a minha mãe – que nem sequer sabe que eu existo. Como se diz a uma mãe, "sou a tua filha", quando ela pensa que essa filha morreu no parto?

E isto filma-se?

Porque é de um filme que se trata. O meu filme. Vou chamar-lhe: "As Mulheres do Meu Pai".


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Romance contagiante sobre mulheres,música,muita cor.Viajamos devorando as páginas com prazer,até Africa.Mostra-nos  o lado  humano, divertido e emocionante de África sem calamidades.



Novo livro de Agualusa

 
O novo livro de José Eduardo Agualusa,

nasceu de um projecto para cinema e

conta uma história passada

em vários países do sul de África.

Em entrevista, o autor contou que

o romance surgiu a partir de uma viagem

que fez em finais de 2005 com a cineasta Karen Boswall,

de Luanda (Angola) até à Ilha de Moçambique,

passando pela Namíbia e África do Sul. 
 

Em "As Mulheres do Meu Pai", Laurentina Reis, 30 anos uma realizadora de cinema e documentarista portuguesa de origem africana (nasceu na Ilha de Moçambique) regressa a África para conhecer o pai,descobre que ele é músico angolano que se tornou famoso nos anos sessenta e setenta. Faustino Manso, viveu em diversas cidades angolanas, ao longo da costa, bem como em Cape Town, Maputo, Quelimane e Ilha de Moçambique.Laurentina tenta reconstruir o percurso do pai, entrevistando as suas mulheres e filhos e algumas pessoas que com ele conviveram.



sexta-feira, 25 de maio de 2007

OS POEMAS



Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana



quinta-feira, 17 de maio de 2007

Emoções

 



Prendre un enfant par la main

Pour l'emmener vers demain,

Pour lui donner la confiance en son pas,

Prendre un enfant pour un roi.

Prendre un enfant dans ses bras

Et pour la première fois,

Sécher ses larmes en étouffant de joie,

Prendre un enfant dans ses bras.

Prendre un enfant par le cœur

Pour soulager ses malheurs,

Tout doucement, sans parler, sans pudeur,

Prendre un enfant sur son cœur.

Prendre un enfant dans ses bras

Mais pour la première fois,

Verser des larmes en étouffant sa joie,

Prendre un enfant contre soi.

Prendre un enfant par la main

Et lui chanter des refrains

Pour qu'il s'endorme à la tombée du jour,

Prendre un enfant par l'amour.

Prendre un enfant comme il vient

Et consoler ses chagrins,

Vivre sa vie des années,

puis soudain,

Prendre un enfant par la main

En regardant tout au bout du chemin,

Prendre un enfant pour le sien.

Yves Duteil/Prendre un enfant


quarta-feira, 16 de maio de 2007

Porque me apetece...

"Aquele que tem os pés bem assentes na terra está parado."


Jostein Gaarder _ Biblioteca Mágica




segunda-feira, 14 de maio de 2007

Dentro de nós...



É necessário abrir os olhos e perceber
que as coisas boas estão dentro de nós,
onde os sentimentos não precisam de motivos
nem os desejos de razão. O importante é
aproveitar o momento e aprender sua duração,
pois a vida está nos olhos de quem saber ver.



(Gabriel Garcia Marques)



sexta-feira, 11 de maio de 2007

Aquela Negra

Aquela negra

De enxada em punho,

lutando pela minha fome;

aquela negra que jorra suores na minha sede

e que vai de lenha na cabeça porque o frio me consome;

aquela negra pobre, sem nada,

que vende os panos para me vestir;

que chora nas ruas o meu nome;

aquela negra é minha mãe.


Jorge Macedo







quinta-feira, 26 de abril de 2007

SOU UMA MENINA QUE SONHA

           PEQUENA PRINCESA

Como gostava de ser princesa,
calçar sapatinhos de cristal
Viver num castelo com boa mesa,
e receber brinquedos p'lo Natal

Quero brincar agora, que sou menina
e de noite muito sonhar
Engano a fome desde pequenina,
vou levando a vida a trabalhar

Minha idade, é de brincar com bonecas
mas faço casaquinhos muito bonitos
Gostava de beber leite em lindas canecas
e não vender na rua alguns docitos

Não devia sentir a infância perdida,
e ao acordar, ser feliz com a alvorada
Sonhar com o sabor da boa vida,
e não ter a idade adulta penhorada

Adorava ter minha mãe sempre feliz
e comer com meus irmãos pão de centeio
Não passo de uma menina infeliz
cheia de vontade em fugir deste meio

Sou uma criança triste e já adulta
que sofre da ganância que leva ao caos
Queria comer bem, e aprender a ser culta,
não ser explorada por homens maus

Como gostava de brincar apanhada
e de porta em porta não vender soda
Precisava muito de ser amada
e de vestir roupinhas da moda

Era bom poder jogar à bola
e ir ver a praia e o mar
Não devia mais faltar à escola
e da fome, não voltar chorar

Sou filha de um operário Cristão
que finge, que a fome não rói
Sonho com arroz e um pedaço de pão
P'ra enganar meu estômago que dói

Trabalho p'ra miséria não me comer
até sonho com bicicletas de selim já gasto
Nelas vou pedalando a correr
fugindo desta sorte de mau repasto

Levanto-me ao troar das seis em ponto
para mais um dia de pobreza farta
Trabalho de manhã à noite, e já não conto
minhas lágrimas límpidas, cor de prata

Sou uma menina que sonha em ser ave
e voar para o mundo das princesas felizes
Poisar junto de gente, que não sabe
do triste canto das crianças infelizes
.


de: Fernando Ramos


Uma amiga me enviou por mail 




 



segunda-feira, 23 de abril de 2007

ONDJAKI

Divulgação Nas minhas leituras

estão sempre presentes

os autores africanos

 de expressão portuguesa

em especial os angolanos.

Nestes ultimos tempos

tenho lido muito Ondjaki.

Literatura africana deve
 ser lida com sotaki

é assim que "viajo".

Concordo com 

 minha mana xadi

quando diz que

Ondjaki é o Mia Couto angolano.

Com este livro acabadinho de sair

Ondajki leva-nos até

às ruas da nossa infância.

"Há espaços que são sempre nossos. E quem os habita, habita também em nós. Falamos da nossa rua, desse lugar que nos acompanha pela vida. A rua como espaço de descoberta, alegria, tristeza e amizade. Os da Minha Rua tem nas suas páginas tudo isso.
Como num filme, sempre me acontecia isso: eu olhava as coisas e imaginava uma música triste; depois quase conseguia ver os espaços vazios encherem-se de pessoas que fizeram parte da minha infância. De repente um jogo de futebol podia iniciar ali, a bola e tudo em câmara lenta, um dia eu vou a um médico porque eu devo ter esse problema de sempre ima
ginar as coisas em câmara lenta e ter vergonha de me dar uma vontade de lágrimas ali ao pé dos meus amigos.
A escola enchia-se de crianças e até de professores, pessoas que tinham sido da minha segunda classe, da terceira...
Quando alguém me tocava no ombro, as imagens todas desapareciam, o mundo ganhava cores reais, sons fortes e a poeira também."

Ondjaki

Obrigada Ondjaki


sexta-feira, 30 de março de 2007

Terra Gretada

Terra autobiográfica (fragmento


Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.
Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.
Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.
Alguém varreu a fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.



Terra Gretada


Costa Andrade

sexta-feira, 23 de março de 2007

Voltei

Depois de algum tempo sem blogar nadinha Cool voltei.


Gostava de dizer que tinha feito uma viagem maravilhosa e que trazia muitas coisas para vos contar e mostrar.Mas não,a culpa foi todinha do meu trabalho.Livros,livros e mais livros e.....muitos livros!!Cool


E para recomeçar trago uma linda  canção.


 





sábado, 17 de fevereiro de 2007

A Paz é o que o Povo chama

Nada melhor para acabar a Sexta-feiraWink


Olhar fotos e escutar estas magníficas vozes angolanas.


"Apaixonei" pelo kandengue rsrsrrsrCool


Saudade...




sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Música

Terminar a sexta -feira com música


Fecho os olhos e parece que escuto Elis...




















Section Photos d'Elis Regina Section Photos de Maria Rita

 


 


 



Guitarra Portuguesa

ARREPIADO

O meu coração acelera, os meus poros
Dilatam-se, a minha pele fica enrrugada,
As narinas adejam e a Mente fica parada.
É assim que eu fico, sempre que a modos

Confronto algumas realidades, tão diferentes,
Tão iguais, à luz das diversas frentes.
Aquela, luta por ser igual (e resiste),
Aqueloutra, bate-se por o não ser (e insiste).

A beleza, a fealdade e os contrários
Fazem-me lembrar, o que viu um “Sradivarius”:
Antigo, complexo e uma “obra-prima”.

Mas perante uma guitarra Portuguesa
Singela e simples, ficaríamos de certeza
Arrepiados, principalmente quando ela trina.


Estoril, 10 de Julho de 2004


Francisco da Renda





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

BENGUELA

 "Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos,
Com o vemelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor"



Este poema a Benguela do amigo Olimpio Neves é para mim um dos mais belos!Wink


 AQUI


 



domingo, 4 de fevereiro de 2007

MANGA VERDE COM SAL

 


















 


"Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida."


Rui Knopfli /1972



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

ONTEM FOI UM DIA .....


Ai e que dia!


Daqueles...


 Transmitir aqui, por palavras, o sentimento de alegria do nosso encontro,


poderia fazer perder toda a magia de um dia tão especial.


Encontro de uma amizade que se construiu dia a dia.


Foi um dia cheio de alegria,muita vida e gargalhada,conversa desinibida.


O solinho,esse, esteve a nosso favor e brilhou lá no altinho.


Até ouvi 1 das ESTAÇÕES DE VIVALDI!Cool


Ora foi ou não, um dia todo ESPECIAL!?Wink


 


 



quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Manhã de chuva

 


 


"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
"


Alberto CaeiroSmile


 



MIACOUTANDO

 MAR ME QUER


"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."


Mar me quer


Mia Couto


 


Já há algum tempo que este livro "mora" na biblioteca,registei,cataloguei e arrumei,gosto do autor, mas ainda nao tinha tido tempo de deitar um olhinho com devagar Smile para a obra,hoje ao ver o livro fora da estante habitual peguei,folheei e li na abertura do primeiro capítulo "Deus é assunto delicado de pensar..."continuei o meu caminho e encontrei "Sou feliz só por preguiça..." dá-me vontade de rir,só mesmo Mia Couto,o entusiasmo foi tanto que o trouxe para casa.Revela-nos a história de um homem e de uma mulher,o Zeca Perpétuo e a mulata Luarmina,vizinhos,Zeca olhando o mar vai contando historias do passado Luarmina escuta.Zeca tenta seduzir e a mulata Luarmina defende-se de mil maneiras,tentando resistir ao namoradeiro Zeca.


 


- Levanta, ó dono das preguiças.


 É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo:
- Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
- Conversa de malandro…
- Sabe uma coisa, D. Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver…
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher…
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, D. Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestino sobre pensarmos Deus ou não-Deus…


Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
- Não é verdade, D. Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu um suficiento do actual presente. E basta...


....Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras, Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se.
- Me deixe sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol?
- Que ideia, Dona vizinha?! Quem lhe disse que eu tinha essa intenção?
Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência, beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela...


...E até que Dona Luarmina, aliás Albertina da Conceição Melistopolous, já foi bela de espantar a homenzarrada. Sei isso porque testemunhei um flagrante dessa formosura dela. Entrei em sua casa, sentei na sala grande com vista para o mar. Foi então que eu vi a fotografia. Era de uma moça de espantável beleza, corpo de aguar as mais mornas bocas.
- Quem é essa?
- Sou eu, quando era nova. Antes de chegar
aqui...

Me levantei, já em vias de tocar a foto. Mas ela, secamente, emendou a visão minha, vertendo a moldura sobre a mesa. E ali ficou, para os restantes dias, aquele retrato deitado de costas para a luz. Eu bem tentava espreitar, da janela, a imagem da sua antiga beleza. Em vão.
Restava-me a presente figura de Luarmina, gorda e engordurada. A mulher, por razões de angústia, se deixara acumular, quilos sobre o peso. Eu entendo: uma boa maneira de esconder a tristeza é cobrirmo-nos de carne. O sofrimento é fatal quando atinge os ossos. Chegada aí, a tristeza se apressa em virar esqueleto. Sábio é dar cobertura ao corpo, intermediar gordurosas fronteiras.
Às vezes, ainda relampeja nela alguma infância. Então, ela tenta brincar-me, espicaçar-me uma ciumeira.
-
Uma vez, um homem me chamou de dólingui.
- Dólingui?
- Dólingui ou darilingue. Era um estrangeiro de fora.
- O que é isso, darilingue? Tenho muitos nomes bastante melhores que esse, não quer ouvir Dona vizinha?


...Dona vizinha desconfia das desventuras dos outros. Só lhe interessa as antiguidades de que fiz parte. E eu, para subterfugir, aldrabo umas lembranças, desenrasco uns pensamentos. Até, um dia, lhe perguntei:
- Por que só minhas lembranças, as pessoais?
A vizinha não respondeu. Antes, retrucou assim:
- Bom, se lhe custa, então, me conte uns sonhos…
Mas eu que nem me lembro nunca dos sonhos que me visitam enquanto durmo! É que temos horários diferentes: eu e o sonho. E aviso:
- Hão-de ser sonhos falsificados…
- Não importa.
E teimei. Até porque traz má sorte recordar quem nos visitou durante o sono. Assim, eu iria dar umas demãos de invenção nos meus relatos. Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.
- Não faz mal, Seca Perpétuo. Hoje, até eu podia pagar para alguém me contar os sonhos.
Riu-se, em esboço. Mas era uma só tristeza molhada. Depois, deixei minha vizinha em seu assento e fui regressando, em passo lento, a minha casa. Luarmina se entranhou na sua pequena mania, como se descosturasse um pano nenhum:
- Mar me quer, bem me quer…
Este era o cantochão de Luarmina, o infindo rameramejar dela. Todos fins de tarde a mulata fica sentada, num degrau da varanda, e vai desfolhando infinitas flores. Ao fim de um tempo, todo o pátio está forrado a pétalas, o chão espantado a mil cores.


Que delíciaWink


 



sábado, 20 de janeiro de 2007

BOM SÁBADO



 Aproveitem bem o fim de semana,


umas caminhadas à beira mar,


ou pelo campo


se o tempo deixar


observando a natureza


respirando


um pouco de ar puro.


Beijos gordos


 



Esta noite a conversa foi sobre o cantor caboverdiano TCHEKA a minha amiga sabe de música a potes!


De vez em quando la vem com alguem que eu nao conheço


TCHEKA é um dos que nao conheço,procurei aqui nas pastas de musica do filho mas a busca é longa tá dificil.lolll


Mas deixo aqui este endereço


http://tcheka.blogspot.com/


Espero que gostem


beijos gordos


 



"O amor é um mestre admirável
que nos ensina a ser
o que nunca fomos;
e muitas vezes,
com as suas lições,
muda completamente,
num instante,
os nossos costumes..."

Moliére



sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

A poesia de quem nao se sente poeta...

Mas é!



Estamos sempre esperando alguém


À ESPERA

Estás sempre à espera! Que faça chuva,
Que neve, que isto ou aquilo desapareça.
Mas não acontece nada. Se comes a uva
É claro que esperas que a fome esmoreça,

Se não dizes a alguém que a amas
Nunca irá saber o teu sentimento
E se trancares a vontade, não levantas
Jamais a âncora do teu sofrimento.

Mas tu gostas de esperar, senão mudarias,
Não mudas porque gostas de observar
Lenta e serenamente e não entregarias

Ao pássaro que contemplas ao longe,
A tua preguiça de conjugar o verbo amar.
Um conselho: enquanto esperas, come funge.


Estoril, 31 de Março de 2005
Francisco da Renda

Descaradamente pedi ao poeta para transcrever os seus poemas.


Obrigada amigo.


Beijo gordo



Angola


quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

As Raízes de Nosso Amor



Geraldo Bessa Victor

Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa.

Nos teu olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)

A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.

Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...

O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar desgoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.

Assim, onde te encontres (seja onde estivesses,
por toda a parte onde o teu vulto for),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo de minh'alma de poeta:
- Meu amor! Meu amor
!



Batuque


Marimbas, ngomas, zabumbas,
guizos, quissanges, chigufos...
Batuque doido – loucura
regada pelos marufos...

Bailados sensuais, ardentes;
perturbante orquestração;
canções sentidas, dolentes,
que brotam do coração.

E aquela negra, que dança
mais esbelta e mais torcida,
é mesmo a imagem do Sonho
fazendo bailar a vida!

O batuque me atordoa.
E eu me encanto e me confundo
Nesta loucura que voa
e soa longe do mundo..


E sinto dentro da alma
este batuque sem fim!
Eu sinto bem o batuque
a gritar dentro de mim!


Geraldo Bessa Victor


 



Em jeitinho de começo

Em jeitinho de começo...



Olá a quem passa!Wink
Depois de tanto tempo lá me decidi iniciar um blog.Vamos lá ver como me vou sair! lolollll
Pretendo colocar aqui tudo o que gosto de ler e o que me toca profundamente.
Quem visitar o blog certamente vai encontrar poemas,música,livros de Africa,mais precisamente Angola, porque faz parte de mim, das minhas raizes, do meu passado.Não tenho jeitinho para escrever nada,por isso,tudo o que aqui colocar poderá não ser novidade.Mas será sempre com agrado,carinho e amizade.
Beijos gordos para os meus visitantesKiss