"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Alberto Caeiro
"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Alberto Caeiro
MAR ME QUER
"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."
Mar me quer
Mia Couto
Já há algum tempo que este livro "mora" na biblioteca,registei,cataloguei e arrumei,gosto do autor, mas ainda nao tinha tido tempo de deitar um olhinho com devagar para a obra,hoje ao ver o livro fora da estante habitual peguei,folheei e li na abertura do primeiro capítulo "Deus é assunto delicado de pensar..."continuei o meu caminho e encontrei "Sou feliz só por preguiça..." dá-me vontade de rir,só mesmo Mia Couto,o entusiasmo foi tanto que o trouxe para casa.Revela-nos a história de um homem e de uma mulher,o Zeca Perpétuo e a mulata Luarmina,vizinhos,Zeca olhando o mar vai contando historias do passado Luarmina escuta.Zeca tenta seduzir e a mulata Luarmina defende-se de mil maneiras,tentando resistir ao namoradeiro Zeca.
- Levanta, ó dono das preguiças.
É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo:
- Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
- Conversa de malandro…
- Sabe uma coisa, D. Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver…
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher…
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, D. Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestino sobre pensarmos Deus ou não-Deus…
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
- Não é verdade, D. Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu um suficiento do actual presente. E basta...
....Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras, Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se.
- Me deixe sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol?
- Que ideia, Dona vizinha?! Quem lhe disse que eu tinha essa intenção?
Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência, beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela...
Me levantei, já em vias de tocar a foto. Mas ela, secamente, emendou a visão minha, vertendo a moldura sobre a mesa. E ali ficou, para os restantes dias, aquele retrato deitado de costas para a luz. Eu bem tentava espreitar, da janela, a imagem da sua antiga beleza. Em vão.
Restava-me a presente figura de Luarmina, gorda e engordurada. A mulher, por razões de angústia, se deixara acumular, quilos sobre o peso. Eu entendo: uma boa maneira de esconder a tristeza é cobrirmo-nos de carne. O sofrimento é fatal quando atinge os ossos. Chegada aí, a tristeza se apressa em virar esqueleto. Sábio é dar cobertura ao corpo, intermediar gordurosas fronteiras.
Às vezes, ainda relampeja nela alguma infância. Então, ela tenta brincar-me, espicaçar-me uma ciumeira.
- Uma vez, um homem me chamou de dólingui.
- Dólingui?
- Dólingui ou darilingue. Era um estrangeiro de fora.
- O que é isso, darilingue? Tenho muitos nomes bastante melhores que esse, não quer ouvir Dona vizinha?
...Dona vizinha desconfia das desventuras dos outros. Só lhe interessa as antiguidades de que fiz parte. E eu, para subterfugir, aldrabo umas lembranças, desenrasco uns pensamentos. Até, um dia, lhe perguntei:
- Por que só minhas lembranças, as pessoais?
A vizinha não respondeu. Antes, retrucou assim:
- Bom, se lhe custa, então, me conte uns sonhos…
Mas eu que nem me lembro nunca dos sonhos que me visitam enquanto durmo! É que temos horários diferentes: eu e o sonho. E aviso:
- Hão-de ser sonhos falsificados…
- Não importa.
E teimei. Até porque traz má sorte recordar quem nos visitou durante o sono. Assim, eu iria dar umas demãos de invenção nos meus relatos. Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.
- Não faz mal, Seca Perpétuo. Hoje, até eu podia pagar para alguém me contar os sonhos.
Riu-se, em esboço. Mas era uma só tristeza molhada. Depois, deixei minha vizinha em seu assento e fui regressando, em passo lento, a minha casa. Luarmina se entranhou na sua pequena mania, como se descosturasse um pano nenhum:
- Mar me quer, bem me quer…
Este era o cantochão de Luarmina, o infindo rameramejar dela. Todos fins de tarde a mulata fica sentada, num degrau da varanda, e vai desfolhando infinitas flores. Ao fim de um tempo, todo o pátio está forrado a pétalas, o chão espantado a mil cores.
Que delícia
BOM SÁBADO
Aproveitem bem o fim de semana,
umas caminhadas à beira mar,
ou pelo campo
se o tempo deixar
observando a natureza
respirando
um pouco de ar puro.
Beijos gordos
Esta noite a conversa foi sobre o cantor caboverdiano TCHEKA a minha amiga sabe de música a potes!
De vez em quando la vem com alguem que eu nao conheço
TCHEKA é um dos que nao conheço,procurei aqui nas pastas de musica do filho mas a busca é longa tá dificil.lolll
Mas deixo aqui este endereço
Espero que gostem
beijos gordos
"O amor é um mestre admirável
que nos ensina a ser
o que nunca fomos;
e muitas vezes,
com as suas lições,
muda completamente,
num instante,
os nossos costumes..."
Moliére
Mas é!
Estamos sempre esperando alguém
À ESPERA
Estás sempre à espera! Que faça chuva,
Que neve, que isto ou aquilo desapareça.
Mas não acontece nada. Se comes a uva
É claro que esperas que a fome esmoreça,
Se não dizes a alguém que a amas
Nunca irá saber o teu sentimento
E se trancares a vontade, não levantas
Jamais a âncora do teu sofrimento.
Mas tu gostas de esperar, senão mudarias,
Não mudas porque gostas de observar
Lenta e serenamente e não entregarias
Ao pássaro que contemplas ao longe,
A tua preguiça de conjugar o verbo amar.
Um conselho: enquanto esperas, come funge.
Estoril, 31 de Março de 2005
Francisco da Renda
Descaradamente pedi ao poeta para transcrever os seus poemas.
Obrigada amigo.
Beijo gordo
As Raízes de Nosso Amor
Geraldo Bessa Victor
Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa.
Nos teu olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)
A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.
Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...
O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar desgoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.
Assim, onde te encontres (seja onde estivesses,
por toda a parte onde o teu vulto for),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo de minh'alma de poeta:
- Meu amor! Meu amor!
Batuque
Marimbas, ngomas, zabumbas,
guizos, quissanges, chigufos...
Batuque doido – loucura
regada pelos marufos...
Bailados sensuais, ardentes;
perturbante orquestração;
canções sentidas, dolentes,
que brotam do coração.
E aquela negra, que dança
mais esbelta e mais torcida,
é mesmo a imagem do Sonho
fazendo bailar a vida!
O batuque me atordoa.
E eu me encanto e me confundo
Nesta loucura que voa
e soa longe do mundo..
E sinto dentro da alma
este batuque sem fim!
Eu sinto bem o batuque
a gritar dentro de mim!
Geraldo Bessa Victor
Em jeitinho de começo...