segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Manga








Fruta do paraíso




companheira dos deuses
as mãos
tiram-lhe a pele
dúctil
como, se de mantos
se tratasse
surge a carne chegadinha
fio a fio
ao coração
leve
morno
mastigável
o cheiro permanece

para que a encontrem
os meninos




pelo faro





Ana Paula Ribeiro Tavarez (Angola)








segunda-feira, 13 de outubro de 2008


Quando eu voltar,

que se alongue, sobre o mar,
o meu canto ao Creador!


Porque me deu, vida e amor,

para voltar...

Voltar...

Ver de novo baloiçar

a fronde magestosa das palmeiras

que as derradeiras horas do dia,

                           circundam de magia...
                              Regressar...

Poder de novo respirar,

(oh!... minha terra!...)

aquele odor escaldante

que o húmus vivificante

do teu solo encerra!

Embriagar

uma vez mais o olhar,

numa alegria selvagem,

com o tom da tua passagem,

que o sol,

a derdejar calor,

transforma num inferno de côr...



Sim! Eu hei-de voltar,

tenho de voltar,

não há nada que mo impeça.

Com que prazer

hei-de esquecer

toda esta luta insana...

que em frente está a terra angolana,

a prometer o mundo a quem regressa...



Ah! quando eu voltar...

Hão-de as acácias rubras,

a sangrar

numa verbena sem fim,

florir só para mim!...

E o sol esplendoroso e quente,

o sol ardente,

há-de gritar na apoteose do poente,

o meu prazer sem lei...

A minha alegria enorme de poder

enfim dizer:



Voltei!...



Alda Lara, 1948


sábado, 31 de maio de 2008

Avódezanove e o Segredo do Soviético


Ondjaki lançou 

"
Avódezanove e o Segredo do Soviético




Aqui fica um cheirinho desse livro acabadinho de nascer







Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira...


— AvóCatarina, é verdade que o EspumaDoMar tem um jacaré guardado no quintal dele, na casota do cão?

— Pode ser — a Avó ria.

— E jacaré cabe numa casota de cão?

— Se for pequenino.

Uns tinham medo dessa estória, outros riam de nervos, a comer depressa para irmos para a rua outra vez. A AvóAgnette não estava em casa, tinha ido a um funeral de última hora.

— Aqui em Luanda as pessoas morrem sem avisar. Que falta de educação! — a AvóCatarina dizia.

Chuva assim de começar de repente sem dar tempo de dizermos que estava ainda só a pingar com cheiro bonito de tirar a poeira das folhas e incomodar os morcegos: em noites assim, eles não voam, ficam desorientados com os barulhos, foi a AvóCatarina que disse, porque os morcegos só vêem com os gritos deles, parece é radar, como os Migs quando voam à noite para ir bombardear as tropas dos sul--africanos carcamanos.

— No céu cabe tanta chuva, Avó?

— São os mortos a chorar ou a rir. Anda a morrer muita gente.

— Não assustes os miúdos, Catarina — a AvóAgnette pediu.

— As crianças não têm medo da verdade. A chuva limpa o mundo. Vou lá acima fechar as janelas.

Avódezanove e o Segredo do Soviético
       Ondjaki



Ondjaki,obrigada por mais um livro,que nos vai deliciar.



sexta-feira, 30 de maio de 2008

Pés descalços



Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes
os meus pés caminhantes



Decio Bettencourt Mateus, in Os Meus Pes Descalcos


sexta-feira, 18 de abril de 2008

Mãos Esculturais





















Foto de Mario Cravo Neto

Além deste olhar vencido
cheio dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradoras que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África


Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negras mistério orlado de sorrisos brancos
adentro das caridades que exploram e das medicinas
que matam


Além África dos atrasos seculares
em corações tristes


Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que constrói
sob o peso do que fabrica para se destruir


Eu vejo além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo


Além deste cansaço em outros continentes
a África viva
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.



                   Agostinho Neto -
Sagrada Esperança, 1974



quarta-feira, 5 de março de 2008

LUAR DE CHÃO

Quando já não havia outra tinta no mundo
o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel,
ele escreveu no próprio corpo.
Assim nasceu a voz,
o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem foz nem nascente



Mia Couto

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

"Sou Da Mesma Terra Que Tu"



Quando te disse
que era da terra selvagem
do vento azul
e das praias morenas...
do arco-iris das mil cores
do sol com fruta madura
e das madrugadas serenas....

das cubatas e musseques
das palmeiras com dendém
das picadas com poeira
da mandioca e fuba também...


das mangas e fruta pinha
do vermelho do café
dos maboques e tamarindos
dos cocos, do ai u'é...

das praças no chão estendidas
com missangas de mil cores
os panos do Congo e os kimonos
os aromas, os odores...

dos chinelos no chão quente
do andar descontraido
da cerveja ao fim de tarde
com o sol adormecido...

dos merenges e do batuque
dos muquixes e dos mupungos
ds imbondeiros e das gajajas
da macanha e dos maiungos.

da cana doce e do mamão
da papaia e do cajú....

tu sorriste e sussurraste
"Sou da mesma terra que tu!"


Ana Paula Lavado


in " Um beijo sem nome" do livro "Vozes ao Vento"



terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

MAIS ... ONDJAKI

"bom dia camaradas





 


        Era de noite, estávamos a conversar na varanda, a tia Dada e eu.
Ela estava a contar-me como tinham sido as férias dela em Luanda, as coisas que ela tinha feito, os sítios que ela tinha ido enquanto eu estava nas aulas.
Ela ia-se embora no dia seguinte, e já há alguns dias que não falávamos, então estávamos mesmo a pôr a conversa em dia, mas, claro, naquele caso era pôr a conversa na noite.

    Noite tem cheiro, sim.
Pelo menos aqui em Luanda, na minha casa, com este jardim, noite tem cheiro. Eu já vi na televisão umas plantas que só abrem de noite, eu chamo-lhes planta-morcego, e eu não sei se aqui neste jardim tem planta-morcego mas, que a noite traz outros cheiros para esta varanda, lá isso traz.

Se isto que eu vou dizer existe, então aquela noite tinha um cheiro quente, que pode ser uma coisa, imaginem, onde se ponha rosas muito encarnadas, folhas de trepadeira com um bocadinho de poeira, muita relva, barulho de grilos, barulho de lesmas a andar em cima da baba, barulho de gafanhotos, um só barulho de cigarra, um cacto pequeno, fetos verdes, duas folhas grandes de bananeira e um tufo enorme de chá de caxinde, assim tudo bem espremido, eu acho que ia sair o cheiro desta noite.

Cheira tão bem aqui... – a minha tia disse.

São as plantas-morcego...

Que plantas são essas?

São plantas que gostam mais de existir de noite, assim como os morcegos...

Ahn... ela cheirou o ar. – E aqui também há mosquitos-morcego... são aqueles que gostam muito de morder de noite... rimos juntos, ela teve piada.

Tia...

Diz, filho.

Tu sabes porquê que os mosquitos picam tanto?

Não, filho, porquê que eles picam tanto?

É porque têm sede! olhei para ela. – E sabes porquê que têm sede?

Porquê?

Porque, como deves saber, os mosquitos nascem nos charcos de água...

Sim... E?

Então como eles nascem na água quando estão a voar lembram-se sempre de casa, quer dizer, dessa primeira casa, a água...  então eles mordem-nos à procura de água...

E não encontram...

Sim, mas se não há melhor, bebem sangue... expliquei, sério.

Quem te contou isso, filho?

Ninguém me contou tia, eu é que sei...