quinta-feira, 24 de novembro de 2011

           Solidão




 Aproximo-me da noite

o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso


Esta deveria ser a hora
em que me recolheria

como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou


Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna


Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo




Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
































terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vamos dar uma espreitadela ao novo livro de Ondjaki...

 A bicicleta que tinha bigodes




“essa fogueira de sermos meninos”



não há como fugir ao que tem de ser dito: escrevemos em busca da voz que mais nos fala por dentro. ajustando a vida (a escrita?) às “falas do lugar”. escrevendo para lembrar o que ainda não tinha sido contado...

vos agradeço, vos abraço: em criança como agora, eu andava em busca das vossas estórias para fingir e acreditar que os livros sempre inventam essa fogueira de sermos meninos à volta dela...
Ondjaki


 Uma história sem luz elétrica

Sonhei com a bicicleta bem colorida, os da minha rua brincavam com ela, o CamaradaMudo ria muito, a AvóDezanove dizia para termos cuidado para não sermos atropelados por nenhum carro e para não atropelarmos mais nenhum bicho, a bicicleta do meu sonho era bem grande e zunia muito, amarela nas rodas, o quadro e o volante eram vermelhos e os para-lamas assim pretos, só que à frente, um pouco abaixo da zona do volante, ninguém ainda tinha visto: a bicicleta tinha uns bigodes iguais aos do tio Rui...
Ondjaki





quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Calou-se a voz...


Tchipalepa


Andre Mingas

Hey Tchipalepa, Hey Tchipalepa


Étekely mwe nda kussanguelê


Vongila, vongila, vongila…
Hey wa wabele mu kizua kwenhoto

Kala mutu kiosso kia chicaneca

Hey wa wabele mu kizua kwenhoto

Hey Tchipalepa…………………


 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cidade que me viu nascer



Carta a um antigo amor


Setembro de 1999

Saudosa Nova Lisboa de outros tempos:
Com o nome de "Cidade do Huambo", nasceste adulta em pleno mato. Foste um dos sonhos do genial visionário Norton de Matos, que aproveitou a inauguração de novo troço da linha férrea que rasgaria Angola até à fronteira Leste, para a sua solene fundação em 21 de Setembro de 1912. Nem todos previram o enorme alcance da extraordinária medida. Muitos a criticaram até, desabridamente.
Mas a tua implantação no Planalto equivalia a injectar no interior de Angola as energias que o levassem à floração plena. Estavas pois fadada para nobres destinos. Aconteceu porém o pior: a Grande Guerra de 14-18 mergulhou o mundo na destruição e debilidade.
Assim, só em 28 recebeste desvelos governativos e, mesmo estes, mais virtuais do que efectivos. Quando em 34 cheguei ao Huambo, foste para mim uma rotunda desilusão: vagueava no vago aglomerado, à procura do que deveria ser uma cidade. Não passavas porém de um esqueleto desconexo: casas incaracterísticas semeadas a esmo, sem o mínimo de condimentos urbanísticos. De dia, espreguiçavas-te ao sol dardejante do planalto; à noite, raros candieiros de gasómetro eram débeis pirilampos pregados no escuro.

Algo havia em ti, contudo, que se insinuava dentro de mim: a pouco e pouco, insidiosamente, foste-me conquistando. Só mais tarde me dei conta da transformação: fora afectado pelo feitiço angolano, refinado pelos teus atractivos. Numerosos, envolventes, dominadores...
Jovem professor de Letras, a convivência com a juventude espicaçava os comuns anseios de ver Angola e de te ver a ti a voardes alto: envolvi-me ardorosamente nos estremeções do teu despertar para o progresso então possível. Lisboa enviou finalmente o Plano Geral de Urbanização. A sua implantação iria empolgar já não apenas os respectivos responsáveis e alguns enamorados por ti, mas uma grande fatia da população citadina. Foi um fervilhar febril, abriram-se ruas, rasgaram-se avenidas, lançaram-se jardins. Obras do Estado e prédios de particulares brotavam a ritmo nunca visto. De menina mal-feitona converteste-te em donzela ciosa das suas potencialidades, empenhada em se valorizar por todos os meios.
Cada vez mais cativante e acolhedora, atraías simpatias e investimentos; inspiravas confiança e solidez; em número galopante, os teus residentes e muita gente de fora deixaram-se contagiar pela febre realizadora - economias possíveis, apoios de cooperativas e empréstimos hipotecários, eu sei lá... Foi bonito acompanhar essa fase do teu crescer e do teu aformoseamento. Por isso te apontei como exemplo de lançamento de novas terras. Eras bem um modelo de como Angola se valorizava, às vezes pelo contributo privado mais do que por directa intervenção do Estado. Devolvíamos a Angola - com alto juro e dividendos - o que de Angola colhíamos com enorme esforço, vivo apego e forte determinação.

O ritmo do teu crescimento causou inevitáveis desequilíbrios. Mas conseguiste emendar os mais salientes. Enriquecias em património, em nível intelectual e escolar, em cooperativismo, em solidariedade - o que, tudo somado, te vincou inconfundível personalidade.
Ao teu redor, um diadema de rainha: era a constelação de terras bonitas que contigo partilhavam progresso, paz, promoção social das populações planálticas. No seu conjunto - brancos, mestiços e negros - tinham conseguido um milagre singular: converteram o grão pobrissemo do milho, em riqueza para produtores e negociantes. Quanto vale o esforço bem ordenado, a persistência no trabalho, o comando honesto, o carinho pela terra!

Porque as tuas gentes praticavam tudo isso espontaneamente, eras um centro irradiante de prosperidade e bem-estar. Se te tivessem deixado continuar nesses trilhos, aglutinando cores e igualizando as pessoas em direitos, condições e meios, serias hoje uma das urbes cimeiras de todo o Continente Africano. Superando-as a todas na vastidão dos teus horizontes infinitos e pródigos para qualquer lado que a gente se virasse. Terra querida, fadada para tocar os céus, ó minha flor de altura!

Por que fatalidade és hoje um holocausto de destroços e aniquilação?

Será que, ao cair das primeiras chuvas, os cosmos, os lírios e os cólios brotarão da terra, a devolverem-te a esperança?

Por mim, acredito que ressurgirás das cinzas: a tua alma não morre, minha bem amada!


J. MARTINS LOPES
in "O LOBITO" (Set/1999)


terça-feira, 20 de setembro de 2011






                             "A gente precisa do viver para descansar dos sonhos."






Mia Couto



segunda-feira, 28 de março de 2011



Senti que rua não era um conjunto de casas, mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância.



Ondjaki

sexta-feira, 25 de março de 2011

Catuiii


CATUITO”

Quanto tempo passou a entender-te?
Corpo muito pequeno e deliciosamente ágil
Com tuas penas curtas, castanhas e polidas.
Da minha varanda, só queria observar-te,
Saltavas de ramo em ramo, muito frágil
Com as tuas asas serenamente mantidas.

Quantas vezes me puz no teu lugar?
Imaginei que queria ser pássaro
E que podia fazer como tu, voar,
Sem ter necessidade de ser ávaro.

Segui o teu percurso, imaginando-me
Que, seria o melhor dos seres falantes.
Continuo a saltar, revezando-me
Entre ti e outros amantes.


Francisco da Renda

Obrigada amigo pelos teus escritos.









sábado, 12 de março de 2011

Casei-me com a poesia



Fui a um jardim
Com bonitas flores
De agradáveis odores
Escolher uma para mim
Para com ela me juntar
E amar

Escolhi uma rosa
E com ela tive uma prosa
Sobre meus planos de casamento
No momento,
A rosa disse não 
E seus espinhos feriram meu coração

Mais adiante
Escolhi um belo cravo
E falei-lhe de amor
Mas o cravo era altivo
E no mesmo instante
Sua resposta foi um dissabor

Depois
Escolhi uma orquídea bonita
E estando a sós os dois
Falei-lhe de mansinho
E com carinho
A orquídea disse-me que era tudo fita

Com mais flores
De agradáveis odores 
Falei de amor
E mais amargor
Recebi como resposta
Para meu desgosto e desfeita

Por último
Em um belo dia
Procurei e encontrei a poesia,
Falei-lhe íntimo
A poesia não complicou
A poesia aceitou

A poesia deu-me primazia
Namorei e casei com a poesia
Esqueci-me das flores
De agradáveis odores
Esqueci-me do jardim
E do seu caminho outrossim

Casei-me com a poesia
A que me deu primazia!

Décio Bettencourt
Escritor angolano
 

A língua
é o pão que fermento
os dias todos.
Com ela (re)invento,
meço outros ângulos
do sentimento.
(...)
Eis o que sou: ilha
ou corpo cercado
de gente
por todos os lados.

Poeta moçambicano

terça-feira, 8 de março de 2011

O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
0 garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte

Maria Alexandre Dáskalos