sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

"Sou Da Mesma Terra Que Tu"



Quando te disse
que era da terra selvagem
do vento azul
e das praias morenas...
do arco-iris das mil cores
do sol com fruta madura
e das madrugadas serenas....

das cubatas e musseques
das palmeiras com dendém
das picadas com poeira
da mandioca e fuba também...


das mangas e fruta pinha
do vermelho do café
dos maboques e tamarindos
dos cocos, do ai u'é...

das praças no chão estendidas
com missangas de mil cores
os panos do Congo e os kimonos
os aromas, os odores...

dos chinelos no chão quente
do andar descontraido
da cerveja ao fim de tarde
com o sol adormecido...

dos merenges e do batuque
dos muquixes e dos mupungos
ds imbondeiros e das gajajas
da macanha e dos maiungos.

da cana doce e do mamão
da papaia e do cajú....

tu sorriste e sussurraste
"Sou da mesma terra que tu!"


Ana Paula Lavado


in " Um beijo sem nome" do livro "Vozes ao Vento"



terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

MAIS ... ONDJAKI

"bom dia camaradas





 


        Era de noite, estávamos a conversar na varanda, a tia Dada e eu.
Ela estava a contar-me como tinham sido as férias dela em Luanda, as coisas que ela tinha feito, os sítios que ela tinha ido enquanto eu estava nas aulas.
Ela ia-se embora no dia seguinte, e já há alguns dias que não falávamos, então estávamos mesmo a pôr a conversa em dia, mas, claro, naquele caso era pôr a conversa na noite.

    Noite tem cheiro, sim.
Pelo menos aqui em Luanda, na minha casa, com este jardim, noite tem cheiro. Eu já vi na televisão umas plantas que só abrem de noite, eu chamo-lhes planta-morcego, e eu não sei se aqui neste jardim tem planta-morcego mas, que a noite traz outros cheiros para esta varanda, lá isso traz.

Se isto que eu vou dizer existe, então aquela noite tinha um cheiro quente, que pode ser uma coisa, imaginem, onde se ponha rosas muito encarnadas, folhas de trepadeira com um bocadinho de poeira, muita relva, barulho de grilos, barulho de lesmas a andar em cima da baba, barulho de gafanhotos, um só barulho de cigarra, um cacto pequeno, fetos verdes, duas folhas grandes de bananeira e um tufo enorme de chá de caxinde, assim tudo bem espremido, eu acho que ia sair o cheiro desta noite.

Cheira tão bem aqui... – a minha tia disse.

São as plantas-morcego...

Que plantas são essas?

São plantas que gostam mais de existir de noite, assim como os morcegos...

Ahn... ela cheirou o ar. – E aqui também há mosquitos-morcego... são aqueles que gostam muito de morder de noite... rimos juntos, ela teve piada.

Tia...

Diz, filho.

Tu sabes porquê que os mosquitos picam tanto?

Não, filho, porquê que eles picam tanto?

É porque têm sede! olhei para ela. – E sabes porquê que têm sede?

Porquê?

Porque, como deves saber, os mosquitos nascem nos charcos de água...

Sim... E?

Então como eles nascem na água quando estão a voar lembram-se sempre de casa, quer dizer, dessa primeira casa, a água...  então eles mordem-nos à procura de água...

E não encontram...

Sim, mas se não há melhor, bebem sangue... expliquei, sério.

Quem te contou isso, filho?

Ninguém me contou tia, eu é que sei...